Amarelinha – O jogo

16/10/2011 por


Sabe quando uma coisa vem do além e você volta no tempo?
Quem já não sofreu pro amor que atire a primeira pedra… Estava ouvindo a música do Gotan Project dia desses, cheguei a postar ela no facebook de tanto que gosto dela.
Só tinha decorado o refrão, isto é fato, mas algo nela me dava uma sensação de muito tempo atrás, de coisa antiga na minha vida e mal sabia entender o que era…
Entre a música da amarelinha, a letra também fala do capítulo 7 do livro de Julio Cortázar: O JOGO DA AMARELINHA.

O Jogo da Amarelinha – Capítulo 7

Tradução de Fernando de Castro Ferro.

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Eu simplesmente adoro este capítulo, lí este capítulo tantas vezes que cheguei a decorar! Por isso que quando ouvia a música algo me dizia que já tinha ouvido, lido, degustado e sofrido…

E sobre a música, escute ela aqui:

Beijones

Carol

O Jogo da Amarelinha (no original, Rayuela) é um romance escrito por Julio Cortázar em 1963, considerado a obra máxima do autor que, ao lado de Jorge Luis Borges, é o principal representante da literatura argentina, ambos marcados pelas obras extremamente criativas e originais. O assunto principal do livro não são os personagens, por sinal muito bem trabalhados, com capítulos sobre seus cacoetes, suas manias e suas vidas. O assunto principal é o próprio livro. Nas palavras do próprio autor, “esse livro é muitos livros, mas é, sobretudo, dois livros”. O leitor pode começar do capítulo 1 e ir até o 56, tendo assim uma bem construída história sobre um triângulo amoroso. Ou pode optar por começar no capítulo 73, e começar a seguir a ordem indicada por Cortázar. Escolhendo a segunda opção, o leitor verá os acontecimentos de Maga, Oliveira, o Clube da Serpente e o narrador, e depois pode ler citações de grandes autores, textos debatendo a literatura atual, artigos sobre os personagens, desvarios, recortes de um texto maior. Tudo misturado, pulando capítulos para depois voltar aos mesmos, como se fosse um jogo da amarelinha. É um romance de fluxo de consciência introspectiva onde os personagens oscilam e brincam com a mente subjetiva do leitor, e tem várias finais.

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